quinta-feira, 3 de agosto de 2017

#TVRNewsEntrevista: Entrevista com Gigi Pavanello


"Nunca podemos esquecer que já fomos adolescentes e que naquela época um “pode contar comigo” mudaria muitas coisas. Toda ajuda dos adultos nessa fase é bem-vinda. O mais importante é não romper o diálogo" Gigi Pavanello

Gigi é professora de educação física (formada na extinta UNIBAN). No decorrer de sua vida profissional passou também pelo  curso de Artes Cênicas na Faculdade Paulista de Artes. 
 Por mais de 10 anos se manteve em grupos teatrais amadores e se especializou em teatro infanto-juvenil. Atualmente cursa jornalismo na Faculdade Rio Branco em São Paulo e dedica parte de seu tempo estudando também para o processo seletivo do mestrado da Universidade Metodista.
E se você acha que para por aí, se enganou, além de todas essas atividades, Pavanello é bastante requisitada para realizar palestras sobre identidade de gênero e sexualidade em escolas e universidades. 
Gigi é muito querida pelos jovens e adolescentes e o nosso bate papo de hoje é com ela. O tema, claro, "adolescentes". Confira! 

Jairo Rodrigues: Gigi! Você alem de ser uma defensora nata dos adolescentes, é muito querida por eles e os entende como ninguém. Os adolescentes mudam muito em relação à infância. O que nós adultos podemos fazer para ajudá-los nessa fase?
Gigi Pavanello: Antes é preciso explicar que a adolescência é uma fase bem extensa, bem diferente da juventude. Há estudiosos que tratam o adolescente como as pessoas entre 12 e 18 anos, no entanto eu divido pelo período escolar, visto que, é na escola que eles estabelecem sua sociabilidade o que muda muito do fundamental para o ensino médio, sem contar o período na faculdade. Não posso colocar todos no mesmo balaio porque as experiências sociais são bem diferentes. Então, para responder essa pergunta vou focar nos adolescentes entre 12 a 14 anos.

JR:  Porque de 12 a 14? Nessa fase, a mudança é repentina?
GP: Nesta fase a mudança não é repentina, mas sim gradual. Sua alteração hormonal não se estabelece do dia para noite o que os tornam tão oscilantes entre a infância e a adolescência classificando como pré-adolescente. Nesta fase as meninas passam a interessar mais por boas conversar, se preocupam mais com sua aparência e demonstram mais maturidade, em relação aos meninos que ainda querem correr, brincar e demonstrar com frequência sua virilidade, coragem e sua sexualidade.As meninas entendem da sua sexualidade, mas não têm a necessidade de ficar colocando a prova como os meninos. Em relação aos hormônios as elas estão na fase de menstruação, já os meninos ganham mudanças na estrutura corporal e no surgimento de pelos pelo corpo.

JR: Então você está me dizendo que nessa fase é imprescindível ter um diálogo mais aberto, mais direto?
GP: Toda ajuda dos adultos nessa fase é bem-vinda. O mais importante é não romper o diálogo, pelo contrário, esta é a fase que ou se estabelece um papo claro e direto ou será muito difícil estabelecer a partir do ensino médio. Os adultos não podem negligenciar os problemas dos jovens só porque eles não têm a responsabilidade de pagar uma conta, por exemplo. Seus problemas devem ser encarados com seriedade pelo adulto para ganhar a confiança do adolescente. A partir do momento que o jovem confiou em você e te contou algo, ele quer ter a confiança que isso não se tornará piada diante dos demais da família, nem que será repercutido para todos. Importante é não julga-lo e sim, com sensibilidade, instrui-lo. Então para lidar com o jovem é preciso estabelecer regras e que ele possa colocar as dele e saber que vamos seguir.

JR: Você certamente já ouviu o termo “aborrescência”. Porque as pessoas usam esse termo quando se fala em adolescentes?
GP: Ah! Isso já virou senso comum. Infelizmente! Acredito que por ser uma fase difícil e trazer grandes aborrecimentos aos pais acabaram shippando a palavra adolescente com aborrecer. (rs!) Olha só os nossos avós inventaram o primeiro “shippar” (rs!).Infelizmente quando crescemos queremos e somos estimulados a ocupar lugares que nos darão status sociais. Como um adolescente diante de uma criança de 4 ou 5 anos, eles mostram maturidade e um ar de maternidade ou paternidade em suas atitudes. Então a cada fase avançada você esquece o que foi para assumir tal cargo social. O adulto é assim, esquece que já foi adolescente e quer impor seu novo cargo social.

JR: O que você considera como característica mais especifica da adolescência, da infância e da adultez?
GP: A adolescência é a perda do “senso”. Senso de volume quando entra no ônibus gritando e cantando com seus amigos, senso de perigo quando não medi as consequências de suas atitudes, senso estético passeando pela moda entre calças, blusas e tênis. Diz estudiosos que o adolescente tem um desequilíbrio do córtex pré-frontal com o sistema de recompensa, isso acontece porque o organismo ainda não produz a “dopamina” necessária para inibir o imediatismo, irresponsabilidade, gosto pelo risco etc. A infância para mim é marcada pela pureza. Eles são uma tela em branco, prontos e ansiosos por informações. Já o adulto, coitado de nós, somos a época da perda. Perdemos nossa pureza, nossos sonhos, nossa coragem, nossa leveza entre tantas outras perdas. Tudo em prol do desejo, incutido pela sociedade e mídia, de seremos durões, bem sucedidos, conhecedores de tudo o que nos torna cada dia mais frios diante do outro.

JR: O adolescente as vezes se sente um pouco confuso com as descobertas sobre sua sexualidade. Como ajudar o adolescente na busca da identidade?
GP: Acredito piamente que o principal ponto é não julga-los. Depois é compreender sua fase e sua época para poder instruí-lo da melhor forma. Quando eu falo em compreender quero dizer que o adulto deve fazer o exercício de ver que a realidade agora é outra, como será diferente daqui 10 anos. Ajudar na busca da sua identidade tem relação direta a confinação mutua e liberdade de expressão. Se eu dou confiança ao jovem de se abrir comigo, expor suas angustias, vou inibir sintomas de depressão, medo e insegurança para que assim juntos possamos viver de forma livre de conceitos sua sexualidade. 

JR: E quando o adulto não pratica esse exercício de compreensão? 
GP: Se o adulto não faz esse exercício o adolescente fará, mas longe de casa e sem os responsáveis por perto, o que aumenta os riscos. Viver a sexualidade é importantíssimo. Viver com instrução, acompanhamento e amor é fundamental. Nunca podemos esquecer que já fomos adolescentes e que naquela época um “pode contar comigo” mudaria muitas coisas.

JR: Que tipo de relacionamento com os amigos, família e a sociedade adulta pode trazer complicações para a formação psicológica do adolescente?
GP: Confesso que não entendo bem do lado psicológico mas posso falar pelo falo comportamental, sou uma amante dessa fase e observo muito.
As complicações variam muito, porque ainda são seres humanos e cada um tem uma forma de reagir. Mas acredito que a cobrança excessiva vá contra o amadurecimento do jovem, se isso acontece a rebeldia pede espaço e ele dá.

JR: Você acha que essa falta de confiança que as vezes passamos para os jovens, os distanciam de nós? 
GP: Insisto que sem confiança e regrinhas os jovens se distanciam muito de nós. Em um ambiente com os amigos o jovem tem a necessidade de afirmação e isso é perigoso, porque ele vai querer provar que não tem medo, não tem vergonha e isso vai colocá-lo em situações de risco. Com a família o que pode distanciar, é a cobrança pela profissão idealizada pelos adultos, posturas idealizadas pelos adultos, enfim falta de liberdade de viver sua natureza.
Já com a sociedade... acredito que seja mais tranquilo porque eles sabem onde o calo aperta. O jovem é esperto demais. Mas ter algum por perto que de confiança ajuda ainda mais, porque ele terá pra quem desabafar e aprender.

JR: Como você vê o papel da escola na vida dos adolescentes?
GP: Nossa essa pergunta me maltrata. Afinal faço parte desse ambiente, mesmo que muitas vezes não concorde. Rs!
A escola deveria ser o local onde o jovem possa realmente expor e vivenciar suas questões, mas infelizmente não é bem assim. Salvo algumas exceções, claro.

JR: Você quer dizer que a escola deveria estimular mais esses jovens, ter um diálogo mais aberto é isso? 
GP: A escola deveria abrir as janelas das oportunidades, estimular todos os aspectos do jovem. Não poderia tolher sua sexualidade, não deveria classificar entra bolsista e pagantes, não deveria segregar os formatos familiares, não poderia ser tão sexista no ambiente esportivo, não poderia segregar as raças, não poderia menosprezar interesses.... ixi ficaria aqui até cansar de digitar. Mas acredito que deu para entender.

JR: Voce acha que a dificuldade de pais e professores em falar sobre sexo começa muitas vezes na própria vida e isso acaba se estendendo aos filhos e alunos?
GP: Isso é um aspecto sim, porque quando eu não entendo e me relaciono bem com a minha sexualidade não terei como ajudar ninguém. Mas hoje são muitas questões.
A família muitas vezes se depara com fundamentos religiosos para negar o tema, outras não contam com a instrução mínima necessária para replicar e a maioria toma pra si o único e exclusivo direito e dever de abordar o tema com o jovem. Acreditando assim minimizar “ruídos” na informação.

JR: Você acha então que a escola deveria fazer algum tipo de trabalho também com as famílias desses jovens? 
GP: Existe escolas que têm trabalhos lindos com os jovens sobre sexualidade, mas isso levou tempo e um trabalho de reeducação com os familiares. A maioria dessas escolas são públicas. Por que? Porque as escolas privadas é uma prestadora de serviço e tem que manter os pagamentos em dia, o que não é valido bater de frente com o consumidor.

JR: O que você considera como característica mais específica da adolescência?
GP: A perda do senso, como expliquei acima. E as confusões presentes na mudança hormonal.

JR: Uma dica da Gigi para quem está nessa fase de adolescente:
GP: Poxa! Galerinha, sei que os pais de vocês muitas vezes te irritam, mas saibam que não há nesse mundo ninguém que os ame mais que eles. Confia neles, estabeleça regras com eles e saibam que amigos teremos inúmeros no decorrer das nossas vidas, no entanto pouco serão os que permaneceram nelas, já sua família, jamais sairá de perto de vocês. Pode não ser uma conversa boa, pode sim dar algumas brigas, mas encara isso porque a gente só briga com quem a gente ama e acredita que vale a pena.
Uma coisa muito importante pra finalizar. Imagine que eu sou um parente seu que te ama, mas que sempre briga muito com você. Eu te falo assim “Me ensina a te entender? O que posso fazer pra ter sua confiança?”
Quando você conseguir responder isso é porque está pronto pra ter liberdade.

Jairo Rodrigues - TVRNews


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